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A Crise do 'Fazer': Por Que o Mundo Parece Enlouquecer?



O cenário global contemporâneo é, inegavelmente, marcado por uma sensação de desorientação e angústia generalizada. Não é incomum observar que o número de pessoas em profundo sofrimento e desequilíbrio parece superar o de indivíduos que desfrutam de uma vida plena e realizada. Essa aparente "loucura" societal nos impele a questionar as raízes dessa disfunção.

Acreditamos que a chave para desvendar esse mistério reside em uma revisão fundamental de nosso modelo de formação e educação. A confusão que se manifesta no coletivo é um reflexo direto de uma aprendizagem inadequada sobre o que significa "ser", "viver" e, acima de tudo, "valorizar".

O Paradigma Linear do "Fazer"
A cultura ocidental, em sua trajetória histórica, consolidou um paradigma que podemos denominar como o "modelo do fazer". Este é um caminho eminentemente linear, quase como uma trilha pré-definida, que prioriza de forma quase exclusiva a busca incessante por conquistas e a obtenção de recompensas externas. Enraizado em uma ética de trabalho produtivista, este modelo dita que a vida é uma sucessão de marcos a serem alcançados: o diploma, a promoção profissional, o casamento, a aquisição de bens materiais como uma casa maior ou um carro novo, e a acumulação de riqueza.

Cada um desses "degraus" é constantemente comparado ao anterior (que foi menor) e ao vindouro (que será ainda maior), criando um ciclo vicioso de busca por um "próximo objetivo". Curiosamente, o ápice desse trajeto não é a auto realização ou a transcendência, mas sim a aposentadoria – um ponto onde, ironicamente, a própria noção de vida parece esvaziar-se sem a estrutura do trabalho. Em suma, fomos condicionados a crer que a existência é indissociável da produtividade e do desempenho contínuo.

As Consequências de uma Generalização Inadequada
A natureza intrínseca desse modelo do "fazer" é, por definição, competitiva, crítica, meritocrática e externamente orientada. Embora possa ter sua utilidade no âmbito profissional – um campo onde a busca por resultados e a superação são frequentemente esperadas –, o grande erro reside na sua generalização. O que era aplicável a uma esfera específica de nossa existência foi expandido para englobar a totalidade da vida humana.

O resultado é a sociedade que hoje testemunhamos: focada em metas a qualquer custo, hipercompetitiva, excessivamente crítica consigo mesma e com os outros, e dolorosamente desconectada de dimensões cruciais como a espiritual, a emocional, a social e a física. Não surpreende, portanto, que nos encontremos imersos em um cenário tão caótico, desorientado e propenso à "loucura".

O Chamado à Transformação: Protagonismo e Plenitude
É tempo de transpor a etapa da autoculpabilização por uma educação que se mostrou, em muitos aspectos, inadequada. A urgência agora é assumir o protagonismo de uma nova era. Isso implica em cultivar uma consciência de elevação, que nos permita "desaprender" e "recriar" saberes em níveis mais profundos – o espiritual, o emocional e o social – visando a construção de um ambiente interno e externo mais saudável e harmonioso.

A transformação de nosso caminho atual não deve ser encarada como uma mera transição rumo a um "destino final", mas sim como um convite a desfrutar a jornada em sua plenitude, com maturidade e conhecimento. É fundamental abraçar a compreensão de que cada pessoa está em seu próprio percurso, sem a necessidade de comparações externas ou julgamentos levianos. Fomentar a autoaceitação e o amor-próprio tornam-se pilares indispensáveis.

Certamente, essa profunda reorientação exige dedicação e um "treino" constante, um esforço consciente para redefinir valores e prioridades. No entanto, munidos de bom senso e de uma perspectiva mais integral, temos a capacidade de nos tornarmos indivíduos mais completos e de contribuir para um mundo genuinamente mais consciente e compassivo.