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O Papel dos Animais Domésticos na Saúde Mental: Felicidade, Bem-Estar e Segurança à Luz da Ciência



Introdução

A relação entre seres humanos e animais domésticos acompanha a civilização há milênios, mas apenas nas últimas décadas a ciência passou a investigar sistematicamente os efeitos dessa convivência sobre a saúde mental. O interesse não é trivial: estima-se que mais da metade dos lares brasileiros tenha ao menos um animal de estimação, e a Organização Mundial da Saúde já aponta a saúde mental como uma das prioridades globais da década.

Este artigo reúne evidências de estudos nacionais e internacionais — incluindo revisões sistemáticas, metanálises, ensaios clínicos randomizados e estudos populacionais de grande escala — para examinar como cães, gatos e outros animais domésticos impactam a felicidade, o bem-estar subjetivo e a sensação de segurança de seus tutores.


Mecanismos Neurobiológicos da Interação Humano-Animal

Oxitocina — o "hormônio do vínculo".

Estudo seminal publicado na Frontiers in Psychology (2012) por Beetz e colaboradores propôs que a interação positivo com animais eleva os níveis de oxitocina — o mesmo neuropeptídeo liberado durante o contato entre mãe e bebê e entre parceiros românticos. Esse aumento está associado à redução do cortisol (hormônio do estresse) e à ativação do sistema nervoso parassimpático, promovendo calma e segurança.

Dopamina, serotonina e opioides endógenos. Pesquisa mais recente, publicada como preprint no bioRxiv em julho de 2025 por Schmitt e colaboradores, investigou simultaneamente os papéis da oxitocina, dopamina, serotonina e β-endorfina durante interações positivas entre humanos e animais. Os resultados mostraram que o tipo de contato (positivo vs. neutro) afetou significativamente as concentrações de β-endorfina e do metabólito da serotonina (5-HIAA), sugerindo que a interação afiliativa com animais ativa múltiplos sistemas de recompensa e bem-estar no cérebro.


Redução do cortisol.

Múltiplos estudos demonstram que apenas alguns minutos de interação com um cão ou gato reduzem os níveis salivares de cortisol. Uma metanálise de 2022 sobre intervenções assistidas por animais em estudantes universitários (Huber et al., medRxiv) confirmou reduções no estresse agudo e no cortisol salivar após sessões curtas com cães.


Felicidade e Satisfação com a Vida

O estudo que mais repercutiu na mídia em 2025-2026 foi conduzido por pesquisadores da University of Kent (Reino Unido) e publicado em parceria com a London School of Economics. A pesquisa analisou dados de 2.617 domicílios, acompanhando cerca de 100 mil pessoas, e concluiu que:

Ter um animal de estimação melhora a satisfação com a vida tanto quanto aumentar a renda familiar em aproximadamente £ 80.000 anuais — o equivalente a cerca de R$ 500 mil por ano.

Os pesquisadores quantificaram o impacto dos pets na felicidade usando metodologia de valoração econômica (compensating variation), tradicionalmente empregada para mensurar bens não comercializáveis. O resultado foi amplamente divulgado pelo G1, Você S/A e pela Folha de S.Paulo (maio de 2026).

Outro estudo britânico recente, também de 2026 e noticiado pela (Folha), avaliou que a convivência com animais de estimação pode reduzir estresse e ansiedade, aliviar a solidão e oferecer senso de propósito com benefícios comparáveis aos proporcionados por amigos e familiares próximos.


Saúde Mental: Depressão, Ansiedade e Solidão

Evidências Internacionais

Uma revisão sistemática publicada na Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology (2022) examinou a relação entre posse de animais de estimação, solidão e isolamento social. Os resultados indicaram que, embora a solidão seja um fenômeno complexo e multifatorial, tutores de animais frequentemente relatam menores níveis de solidão e maior senso de conexão social.

Para a população idosa, uma revisão sistemática de métodos mistos publicada em 2025 por Salachas e Mentis analisou 13 estudos (8 quantitativos e 5 qualitativos) e concluiu que, na maioria dos casos, os animais desempenham um papel crucial no alívio de sintomas depressivos e na redução da solidão em adultos mais velhos.

Já a revisão sistemática de Scoresby e colaboradores (2021, Veterinary Sciences), que analisou 54 artigos, encontrou resultados mais matizados: 17 estudos mostraram impacto positivo da posse de animais na saúde mental, 19 mostraram impacto misto, 13 não encontraram impacto e 5 encontraram impacto negativo. Isso reforça que os benefícios não são universais, dependem de fatores como vínculo com o animal, suporte social do tutor e condições de vida.

Evidências Nacionais

No Brasil, uma revisão integrativa de ensaios clínicos randomizados publicada no "Caderno Pedagógico" (2024) analisou a relação entre saúde mental e vínculo humano-animal, confirmando benefícios significativos em desfechos como ansiedade e estresse.

Um estudo brasileiro conduzido com estudantes de medicina da UFERSA (Universidade Federal Rural do Semiárido) investigou a relação entre convívio com animais de estimação e saúde mental, encontrando associações positivas entre a presença de pets e menores níveis de estresse percebido.

Pesquisa publicada na Research, Society and Development analisou a percepção da qualidade de vida e do bem-estar subjetivo de pessoas que convivem com animais. Por meio de 18 entrevistas semiestruturadas, emergiram categorias como: "o animal como fonte de afeto incondicional", "o animal como promotor de rotina e propósito" e "o animal como provedor de segurança emocional". Os participantes relataram que a convivência com o pet proporciona esperança, vínculo e segurança, sentimentos que antes eram escassos em suas vidas.

Os benefícios dos animais domésticos não se limitam à saúde mental — há evidências robustas de que eles também melhoram a saúde física, o que por sua vez impacta positivamente o bem-estar psicológico.

Um estudo de coorte prospectivo nacional sueco publicado no Scientific Reports (2018) acompanhou mais de 3,4 milhões de pessoas e descobriu que tutores de cães apresentavam menor risco de morte por doenças cardiovasculares, especialmente entre pessoas que moravam sozinhas. O efeito foi atribuído em parte ao aumento da atividade física (passeios com o cachorro) e em parte ao suporte emocional proporcionado pelo animal.

O projeto (Kardiovize 2030), conduzido na República Tcheca, confirmou que tutores de cães apresentam melhores indicadores de saúde cardiovascular, incluindo pressão arterial mais baixa e níveis mais saudáveis de colesterol e glicemia.


Sensação de Segurança

Um aspecto frequentemente negligenciado na literatura é o papel dos animais na segurança percebida. Estudos qualitativos brasileiros e internacionais apontam que:

  • Tutores de cães, especialmente mulheres que moram sozinhas, relatam maior sensação de segurança em casa e durante caminhadas.
  • A presença de um cão funciona como sinalizador social— pessoas tendem a abordar menos tutores acompanhados de cães para abordagens indesejadas, e mais para interações sociais positivas.
  • O simples latido de um cão já dissuade potenciais intrusos, gerando tranquilidade psicológica que reduz a hipervigilância e a ansiedade noturna.

Essa sensação de segurança contribui indiretamente para a saúde mental ao reduzir o estresse crônico associado à percepção de vulnerabilidade.

É importante apresentar uma visão equilibrada. Estudos como o conduzido pela Universidade de Aarhus (Dinamarca) e King's College London, publicado em 2024, sugerem que os benefícios da posse de animais para a saúde mental não são automáticos nem universais. Com mais de 6 mil participantes, a pesquisa não encontrou diferenças significativas em saúde mental entre tutores e não tutores de animais quando controladas variáveis demográficas e socioeconômicas.

A revisão sistemática de Scoresby et al. (2021) corrobora essa visão: dos 54 estudos analisados, apenas 17 (31%) mostraram impacto claramente positivo. Fatores que podem moderar (ou anular) os benefícios incluem:

  • Custo financeiro da manutenção do animal
  • Estresse associado a problemas de comportamento do pet
  • Luto antecipatório pela expectativa da perda do animal
  • Alergias e limitações físicas do tutor
  • Qualidade do vínculo — tutores com baixo apego ao animal não se beneficiam

Direções Futuras e Implicações Clínicas

1. Avaliação individualizada. Não se pode assumir que recomendar um animal de estimação será benéfico para todos os pacientes. A decisão deve considerar estilo de vida, recursos financeiros, condições de moradia e capacidade de cuidado.

2. Intervenções Assistidas por Animais (IAA). A metanálise de Huber et al. (2022) mostrou que sessões estruturadas com animais (mesmo com animais não familiares) reduzem ansiedade aguda (g = -0,57) e afeto negativo (g = -0,47) em contextos educacionais — um efeito de magnitude moderada a grande.

3. Animais de Suporte Emocional. O estudo brasileiro de D'Atola (2023, Universidade do Vale do Paraíba) discutiu a utilização de animais de suporte emocional no contexto da saúde mental, sinalizando um campo promissor que ainda carece de regulamentação e padronização no país.

4. Prescrição de passeios. Para pacientes com depressão ou ansiedade, a recomendação de um cão pode indiretamente aumentar a atividade física e a exposição ao sol, ambos com efeitos antidepressivos documentados.