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Sobre a boa morte



Quanto mais autênticos somos ao expressar quem realmente somos, mais saudáveis emocionalmente nos tornamos. O inverso também é verdade: quanto mais nos escondemos de nós mesmos, mais adoecemos por dentro.

Por isso, convido você a pensar comigo, de um jeito simples, sobre a boa morte. Não para assustar, mas para mudar de posição, de ponto de vista — para olhar a vida de um lugar diferente.

A existência é breve. E justamente por ser breve, precisa de valor, sentido e significado — a ponto de a própria vida nos agradecer pela coragem de ressignificar nossa finitude. Cada um de nós está presente na própria vida e na vida de quem ama. E a morte, olhada de frente, pode significar exatamente isso: um ato de viver bem.

A vida deixa marcas. O ser humano é capaz de suportar quase qualquer "como" desde que exista um "porquê". Mas às vezes usamos isso de forma distorcida, só para nos sentirmos importantes e valorizados.

Fica então uma pergunta incômoda: por que temos tanta dificuldade em mudar? Se fôssemos capazes de nos dedicar verdadeiramente a nós mesmos, teríamos muito mais chance de evoluir. Encontrar o sentido da própria existência é fundamental — e por isso convido você a refletir: o que a dor do seu sofrimento está tentando te dizer, antes que você parta desta vida? Pense nisso em todas as áreas: física, emocional, familiar, social e espiritual.

Precisamos descobrir quem somos e do que somos capazes. O que você tem feito com o tempo que passa? Você se sente feliz onde trabalha, com aquilo a que tem se dedicado todos os dias? O mau uso do tempo pode se tornar crucial quando, mais adiante, nos vemos em sofrimento, com a saúde fragilizada, prontos para partir.

Chegou o momento de descobrir a nossa essência. Estou onde estou porque preciso estar? O que posso fazer, hoje, para tornar minha situação um pouco menos difícil? Se não olharmos para o lixo acumulado nas relações afetivas, no trabalho, na vida que preservamos a qualquer custo, pode ser tarde demais — e, sem perceber, acabamos cultivando a própria morte aos poucos.

Vamos aprender a ser humanos nos aprofundando em nossos sentimentos, pensamentos e atitudes. Temos nos distanciado do "ser" pelo caminho do "fazer". E hoje temos enorme dificuldade em ficar em silêncio, quietos, pensativos — algo que nos ajudaria a revisitar nossos caminhos e escolhas. Mas sempre há tempo de sermos protagonistas da própria existência.

O amor é a base de tudo na vida, desde que nos permitamos amar de verdade: ser amado, perdoar, pedir perdão, dizer o que sentimos, agradecer — e muito mais. A jornada da reflexão nos faz questionar os pesos que carregamos, os fardos, os medos, as culpas, as verdades e as ilusões. E sentiremos plenitude quando pensamento, sentimento, atitude e corpo estiverem, finalmente, no mesmo lugar.

Sobre curar e ajudar o outro

O processo de nos curarmos — e de conseguirmos ajudar outras pessoas — passa, paradoxalmente, por não sentir a dor do outro como se fosse nossa. Deixa eu explicar melhor: ao sentir a dor do outro como própria, torna-se quase impossível estar ali, presente, porque na verdade estaremos sentindo a nossa própria dor. Se eu sinto a dor, estou em mim, não no outro. Quando tenho compaixão pela dor de alguém, eu a respeito, mas sei que ela não me pertence.

Precisamos estar apropriados da nossa própria vida para sermos dignos de estar ao lado de quem precisa de ajuda. Se não sabemos onde está a nossa importância, dificilmente estaremos aptos a fazer diferença na vida de alguém — e, na hora da morte, corremos o risco de sermos apenas uma presença incômoda.

Pense no que você tem feito. Existe gente que não confia, não entrega, não permite, não perdoa, não abençoa — gente que vive de um jeito morto. Pessoas que reclamam de tudo e de todos, que perpetuam a própria dor se anestesiando com drogas, álcool ou antidepressivos, só para não sentir a tristeza de não saber sentir alegria.

Quando sabemos quem somos, ganhamos também a chance de transformar a vida dos outros. Por isso vale repensar e aproveitar melhor o tempo que temos perdido. Todos nós experimentamos o mesmo medo da dor e da solidão, o mesmo orgulho pela vida, a mesma raiva, a mesma culpa, os mesmos discursos, os mesmos comportamentos. Agimos, muitas vezes, na base do medo — sem perceber que a saúde conquistada pode ser justamente a ponte para experiências plenas de sentido.

Integridade e espiritualidade

A integridade de cada um de nós está alinhada com aquilo que pensamos e com a compatibilidade entre o que dizemos e o que fazemos. Quem conhece a verdade da própria espiritualidade vive a experiência de transcender — não precisa mais provar nada a ninguém. Fé pressupõe entrega: a certeza de que foi o melhor que poderia acontecer, mesmo quando uma doença nos consome, mesmo diante do sofrimento, da morte ou da cura.

Pensar — ou viver — a finitude tem um grande poder de transformação e transcendência. Estar disponível para entender a própria dor e a dor do outro é o desafio de cuidar da espiritualidade. É se libertar dos preconceitos. O que move o eixo da espiritualidade dentro de cada um de nós é o amor e a verdade vividos com integridade.

Os arrependimentos que ainda dá tempo de evitar

Se vivêssemos de um jeito mais saudável, talvez não estivéssemos sofrendo tanto hoje. Mas ainda há tempo de fazer novas escolhas — porque o arrependimento pressupõe que ainda é possível voltar e seguir pelo caminho que consideramos certo.

Um dos arrependimentos mais comuns é ter priorizado as escolhas dos outros em vez das próprias. Muitas vezes fazemos isso só para validar nossa importância na vida de alguém. Para sermos aceitos, ouvidos e compreendidos, acabamos escondendo o que realmente sentimos, acreditando que ocultar protege. Criamos estratégias para nos defender do próprio sofrimento, colecionamos máscaras e usamos as que mais combinam com o nosso estilo. Mas a verdade é que expressar o afeto de verdade é o que nos transforma — a nós e a quem está à nossa volta. E o afeto não evapora: fica ecoando dentro de cada um.

Outro arrependimento comum é ter trabalhado demais. Quando temos um trabalho que nos dá a chance de deixar o mundo um pouco melhor, empenhando energia verdadeira de transformação, encontramos sentido no caminho escolhido — mesmo trabalhando muito.

Há também o arrependimento de ter passado pouco tempo com os amigos. Estar com amigos é vital: com eles construímos relações mais honestas e transparentes, algo que nem sempre é possível viver dentro da família.

E, por fim, o arrependimento de não ter se dedicado à própria felicidade. Uma dica simples ajuda aqui: cuide do que fala, tenha mais prudência ou permaneça em silêncio. Evite conclusões precipitadas e preconceituosas. Não leve tudo para o lado pessoal — nem tudo tem a ver com você, cada pessoa vive seu próprio processo e suas próprias dificuldades. Quem tem baixa autoestima costuma acreditar que todos a acham péssima. Faça sempre o seu melhor, da melhor forma que puder.

Aprender a perder

Passamos a vida tentando aprender a ganhar. Buscamos cursos, livros, técnicas — como adquirir bens, pessoas, benefícios, vantagens, como conquistar o amor da nossa vida. Mas evitamos aprender a lidar com as perdas e com as lutas da própria vida.

Cada perda existencial — um trabalho, uma realidade que conhecíamos, um relacionamento, alguém que amamos — nos abre a possibilidade de aprender sobre perdão: perdão a nós mesmos e ao outro que viveu como pôde e que deixou seu eco, mesmo já não estando mais aqui. E, no fim, sabemos que fizemos diferença.

É assim que crescemos e nos aliviamos da dor: aprendendo a perdoar, deixando nossa marca, levando nossa história conosco.

 

Baseado na obra " A morte é um dia que vale a pena viver"