Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) and Challenges in Marital Relationships: a Literature Review
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento que, embora historicamente associada à infância, persiste na vida adulta em parcela significativa dos casos e produz repercussões relevantes sobre o funcionamento conjugal. O presente artigo tem como objetivo revisar, de forma narrativa, a literatura científica e clínica disponível sobre os principais mecanismos pelos quais os sintomas nucleares do TDAH — desatenção, impulsividade e desregulação emocional — comprometem a qualidade do vínculo amoroso entre parceiros. Foram examinados estudos e publicações que abordam prejuízos empáticos e de percepção social, procrastinação e sobrecarga do cônjuge, comportamentos compulsivos ligados a compras e alimentação, reatividade emocional e explosões de raiva associadas à disforia sensível à rejeição, além de padrões recorrentes de discussão e ruptura comunicacional. Os achados indicam que tais dificuldades derivam predominantemente de disfunções nas funções executivas e na autorregulação emocional, e não de falta de afeto ou de caráter, sendo frequentemente mal interpretadas pelo parceiro como desinteresse, egoísmo ou desamor. A revisão aponta ainda para a eficácia de abordagens psicoterapêuticas específicas para TDAH em contexto conjugal, incluindo psicoeducação do casal, Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e intervenções combinadas com tratamento farmacológico. Conclui-se que o reconhecimento clínico adequado do TDAH adulto e de seu impacto relacional é fundamental para a orientação terapêutica de casais, reduzindo o sofrimento mútuo e favorecendo estratégias de manejo mais eficazes.
Palavras-chave: TDAH em adultos; relações conjugais; funções executivas; regulação emocional; impulsividade.
Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD), although historically associated with childhood, persists into adulthood in a significant proportion of cases and produces relevant repercussions on marital functioning. This article aims to present a narrative review of the scientific and clinical literature on the main mechanisms through which the core symptoms of ADHD — inattention, impulsivity, and emotional dysregulation — compromise the quality of the romantic bond between partners. Studies addressing empathic and social-perception impairments, procrastination and partner overload, compulsive buying and eating behaviors, emotional reactivity and anger outbursts related to rejection sensitive dysphoria, and recurrent conflict patterns were examined. Findings indicate that these difficulties stem predominantly from executive-function and emotional self-regulation deficits rather than from a lack of affection or character flaws, and are frequently misread by the partner as disinterest, selfishness, or lack of love. The review also points to the effectiveness of ADHD-specific psychotherapeutic approaches in couples, including couple psychoeducation, Cognitive-Behavioral Therapy, and combined pharmacological treatment. It is concluded that adequate clinical recognition of adult ADHD and its relational impact is essential for guiding couples therapy, reducing mutual suffering, and fostering more effective coping strategies.
Keywords: Adult ADHD; marital relationships; executive functions; emotional regulation; impulsivity.
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade que comprometem o funcionamento em múltiplos contextos da vida (APA, 2014). Embora tradicionalmente investigado em população infantil, reconhece-se atualmente que o transtorno permanece sintomático em cerca de 60% dos casos diagnosticados na infância, com prevalência estimada entre 2,5% e 5% na população adulta (Barkley, 2020).
Do ponto de vista neuropsicológico, o TDAH está associado a uma diferenciada funcionalidade do córtex pré-frontal, estrutura responsável pela regulação das funções executivas — memória de trabalho, controle inibitório, planejamento e flexibilidade cognitiva (Diamond, 2013; Ramos-Quiroga et al., 2006). Tais prejuízos não se restringem à esfera acadêmica ou profissional: alcançam de modo significativo a esfera afetivo-conjugal, área em que a autorregulação, a atenção sustentada ao outro e o controle de impulsos são exigidos de forma contínua.
Clinicamente, observa-se que casais em que um dos parceiros apresenta TDAH relatam maior frequência de conflitos, menor satisfação conjugal e maior risco de ruptura quando o transtorno não é reconhecido nem tratado adequadamente (Biscaia & Kelmo, s.d.; ABDA, 2013). O padrão costuma seguir uma trajetória característica: em fases iniciais, traços como espontaneidade, intensidade emocional e hiperfoco no parceiro são vividos como charme e paixão; com o tempo, contudo, o mesmo repertório comportamental — associado a esquecimentos, desorganização, impulsividade e dificuldade de sustentar atenção nas interações — tende a ser reinterpretado pelo cônjuge como desinteresse, desamor ou falta de compromisso (TDAH Brasil, 2025).
A prática clínica cotidiana, somada à literatura especializada, sugere que pelo menos cinco eixos sintomáticos concentram a maior parte do sofrimento relacional de casais atravessados pelo TDAH: (a) prejuízos na percepção empática e na comunicação; (b) procrastinação e sobrecarga do parceiro; (c) impulsividade expressa em compras e alimentação compulsivas; (d) reatividade emocional e explosões de raiva; e (e) discussões recorrentes e desgaste comunicacional. Este artigo revisa a literatura disponível sobre cada um desses eixos, buscando oferecer uma síntese útil à prática clínica de profissionais que atendem casais nos quais um ou ambos os parceiros apresentam o transtorno.
Este estudo tem como objetivo geral revisar a literatura científica e clínica sobre o impacto do TDAH em adultos sobre a dinâmica das relações conjugais, com foco específico em cinco dimensões observadas na prática clínica: dificuldades de empatia e comunicação, procrastinação, impulsividade compulsiva (compras e alimentação), desregulação emocional/raiva e padrões recorrentes de discussão.
Trata-se de uma revisão bibliográfica de caráter narrativo, elaborada a partir de levantamento não sistemático em bases de dados científicas (SciELO, PePSIC) e em publicações técnicas de referência na área de neuropsicologia e psiquiatria do TDAH adulto. Foram priorizadas publicações que tratassem especificamente da interseção entre sintomatologia do TDAH e funcionamento conjugal/relacional, incluindo estudos de caso, revisões sistemáticas, artigos teóricos e materiais de divulgação científica assinados por profissionais especializados na área. Os achados foram organizados tematicamente em cinco eixos, correspondentes aos desafios relacionais mais frequentemente relatados na literatura e na observação clínica.
4.1 Prejuízos na empatia e na comunicação conjugal
Embora o TDAH não seja, em si, um transtorno da empatia, os déficits em funções executivas que o caracterizam interferem diretamente na capacidade de sustentar atenção plena ao parceiro durante a interação. A dificuldade em manter o foco durante conversas favorece interrupções frequentes, respostas dadas antes que o outro termine de falar e lapsos de atenção que costumam ser interpretados como desinteresse ou falta de consideração, prejudicando a qualidade da comunicação (Kathju, 2021).
Some-se a isso o fato de que habilidades sociais como a expressão de afeto, a escuta ativa e o manejo de conflitos dependem, em parte, de recursos executivos — como controle inibitório e flexibilidade cognitiva — que se encontram comprometidos no TDAH, o que pode gerar prejuízos concretos nessas competências relacionais (Del Prette & Del Prette, 2019; Assis-Fernandes & Bolsoni-Silva, 2020). Não se trata, portanto, de ausência de sentimento pelo parceiro, mas de uma limitação neurobiológica na capacidade de traduzir esse sentimento em comportamentos de presença e atenção sustentada — distinção clinicamente relevante, pois evita atribuições morais indevidas a um funcionamento cerebral diferenciado.
A procrastinação no TDAH difere qualitativamente do adiamento ocasional observado na população geral: enquanto neste último ela costuma estar ligada a desinteresse pontual ou perfeccionismo, no TDAH ela integra um padrão persistente de disfunção executiva, mediado por menor ativação do córtex pré-frontal e agravado por dificuldades de percepção temporal e por emoções negativas associadas, como ansiedade e culpa (Barkley, 2011; Terapeuta Emilson Silva, 2025).
No contexto conjugal, esse padrão traduz-se com frequência em tarefas domésticas inacabadas, compromissos adiados e responsabilidades que terminam por recair sobre o parceiro sem TDAH, gerando ressentimento mútuo (Orlov, 2010, citado em TDAH Brasil, 2025). A sobrecarga acumulada ao longo do tempo é apontada como um dos fatores de maior desgaste conjugal, podendo inclusive comprometer a saúde psicológica do cônjuge que assume, de forma crescente, funções organizacionais do casal (Pera, 2008, citado em ABDA, 2026).
4.3 Impulsividade compulsiva: compras e alimentação
A impulsividade, um dos três domínios sintomáticos centrais do TDAH, manifesta-se de forma consistente em comportamentos de consumo desregulado. As compras compulsivas, caracterizadas pela aquisição recorrente e descontrolada de bens, associam-se a um padrão irregular de liberação de dopamina, que leva a pessoa a buscar alívio imediato para frustração, tédio ou baixa tolerância à espera, com impacto financeiro e relacional relevante (Marcelo Comparin, 2024).
Padrão semelhante ocorre na esfera alimentar: pessoas com TDAH apresentam até três vezes mais chance de desenvolver transtornos alimentares, sobretudo o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica, fenômeno explicado pela combinação entre impulsividade, desregulação emocional e alterações no processamento cerebral de recompensa (Martin et al., 2022, citados em GATDA, 2024; Ptacek et al., 2016, citados em Latin American Publicações, s.d.). Em ambos os casos — compras e alimentação — o comportamento compulsivo funciona clinicamente como uma forma de autorregulação emocional mal-adaptativa, na qual o consumo (de produtos ou de comida) é utilizado para lidar com estados afetivos intensos que o indivíduo tem dificuldade de regular por outras vias. No contexto conjugal, esses padrões costumam gerar conflitos financeiros, sentimento de traição da confiança do casal e desgaste em torno de promessas de mudança não sustentadas.
4.4 Desregulação emocional e explosões de raiva
A desregulação emocional é hoje reconhecida como um componente central — embora historicamente subestimado nos critérios diagnósticos oficiais — do TDAH em adultos, caracterizando-se por baixa tolerância à frustração, irritabilidade, impulsividade emocional e explosões de temperamento desproporcionais ao estímulo desencadeante, com retorno relativamente rápido à linha de base emocional (Barkley, 2015; OPAS, 2024).
Um construto relevante nesse contexto é a Disforia Sensível à Rejeição (Rejection Sensitive Dysphoria), descrita por Dodson como uma resposta emocional intensa e dolorosa diante de críticas, rejeições reais ou percebidas, mesmo quando sutis, que antecede o processamento racional e pode desencadear reações explosivas, desproporcionais e automáticas (Dodson, citado em TDAH Brasil, 2026). No âmbito conjugal, esse fenômeno amplia a intensidade das discussões cotidianas, uma vez que comentários corriqueiros do parceiro — uma crítica, um tom de voz mais seco, um pedido reiterado — podem ser vividos como ataques à autoestima, provocando reações de raiva, mágoa ou retraimento que dificultam a resolução construtiva do conflito.
É importante destacar que tais reações não configuram, em regra, transtorno de humor ou de personalidade, mas expressão de um sistema de autorregulação emocional menos eficiente, o que reforça a necessidade de diferenciação diagnóstica cuidadosa por parte do profissional de saúde mental (OPAS, 2024).
4.5 Discussões recorrentes e desgaste do vínculo
Os quatro eixos anteriores convergem para um padrão de discussões recorrentes que tende a se cristalizar na dinâmica do casal. Estudos com pais de crianças com TDAH — extensíveis, guardadas as devidas proporções, a casais em que um adulto apresenta o transtorno — apontam para menor satisfação marital e maior frequência de conflito quando comparados a casais sem a condição (Befera & Barkley, 1985; Presentación et al., 2006; Shelton et al., 1998, citados em SciELO/Jornal Brasileiro de Psiquiatria).
Um estudo de caso exploratório sobre as implicações do TDAH na relação conjugal identificou sintomas de impulsividade, desatenção, desorganização e instabilidade de humor como fatores centrais de inadequação relacional relatados pelo próprio indivíduo com o transtorno, incluindo dificuldades de pró-ativação que exigem estímulo constante do parceiro (Biscaia & Kelmo, s.d.). Com o tempo, o padrão de discussões repetidas sobre os mesmos temas — divisão de tarefas, esquecimentos, gestão financeira, tom de voz nas discordâncias — tende a gerar desgaste emocional cumulativo em ambos os parceiros, alimentando um ciclo em que a pessoa com TDAH sente-se cronicamente criticada e o cônjuge sente-se cronicamente sobrecarregado.
A revisão da literatura indica convergência entre os cinco eixos analisados: em todos eles, o denominador comum é o comprometimento das funções executivas e da autorregulação emocional, e não uma suposta falta de afeto, comprometimento ou caráter por parte do parceiro com TDAH. Essa distinção tem implicações clínicas relevantes, pois orienta a intervenção para a psicoeducação do casal como primeiro passo terapêutico: compreender que os comportamentos observados decorrem de um funcionamento neurobiológico diferenciado tende a reduzir a atribuição de intencionalidade negativa e a fortalecer os vínculos afetivos (ABDA, 2013).
A literatura consultada também sinaliza a eficácia de intervenções específicas para TDAH em contexto de casal, superiores à terapia de casal genérica, incluindo abordagens de Terapia Cognitivo-Comportamental voltadas ao manejo de funções executivas, regulação emocional e comunicação, associadas quando necessário a tratamento farmacológico com psicoestimulantes (Safren et al., 2010, citados em ABDA, 2026). É digno de nota que estudos apontam também para o sofrimento psicológico do cônjuge sem TDAH, decorrente do acúmulo de responsabilidades e da exposição recorrente a episódios de desregulação emocional do parceiro, o que reforça a necessidade de que a intervenção terapêutica inclua ambos os membros do casal, e não apenas o indivíduo diagnosticado (Pera, 2008, citado em ABDA, 2026).
Como limitação, cabe destacar que grande parte da literatura consultada é composta por estudos de caso, revisões narrativas e materiais de divulgação técnica, havendo escassez de ensaios clínicos randomizados de grande porte sobre terapia de casal especificamente voltada ao TDAH, sobretudo no contexto brasileiro. Esse cenário aponta para a necessidade de investimento em pesquisas com maior rigor metodológico sobre o tema.
O TDAH em adultos representa um fator de risco relevante, porém tratável, para o desgaste da relação conjugal. Os desafios associados à empatia e comunicação, à procrastinação, à impulsividade compulsiva, às explosões de raiva e às discussões recorrentes compartilham uma origem comum nas disfunções executivas e emocionais próprias do transtorno. O reconhecimento clínico dessa origem neurobiológica — em oposição a leituras moralizantes centradas em falta de amor ou de esforço — constitui passo essencial para a construção de intervenções terapêuticas eficazes, que devem contemplar tanto o indivíduo com TDAH quanto seu parceiro, por meio de psicoeducação, técnicas de TCC voltadas ao manejo executivo e emocional, e, quando indicado, tratamento farmacológico. Recomenda-se que profissionais que atendem casais estejam atentos aos sinais do TDAH adulto não diagnosticado como possível fator subjacente a conflitos conjugais recorrentes, encaminhando para avaliação especializada quando pertinente.
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